Mas a verdade é que a câmera não assusta como antes, sobretudo as gerações nascidas após o advento da internet. Alguns se apaixonam pelas lentes e se tornam celebridades instantâneas graças à sua criatividade. É o caso do quase guru de auto-ajuda Judson Laipply, criador do vídeo “Evolution of Dance” (“Evolução da Dança”). Postada no dia 5 de abril de 2006, a coletânea de ritmos e coreografias transformou-se no primeiro vídeo viral da História. Trocando em miúdos, a categoria abrange os clips que se disseminam pela internet como vírus: alguém assiste e repassa aos amigos imediatamente. Afinal, quem não tem 30 segundos para enforcar no meio de mais um dia de trabalho?
[image: img3.jpg] *VAI PRO TRONO? Para Edney Souza, publicitário especialista em internet, o YouTube é um “grande show de calouros”*
“Estamos diante de um grande show de calouros”, diz Edney Souza, um dos sócios da Pólvora!, agência de comunicação especializada em mídias sociais, blogueiro estrelado e referência da internet no Brasil. Sua tese é comprovada pela fauna divertidíssima que se espalha pelos labirintos do site. Há de tudo, do brilhante ao bizarro. Os cineastas Esmir Filho, Rafael Gomes e Mariana Bastos, criadores do curta “Tapa na Pantera”, usaram a plataforma para mostrar seu talento. Seu pequeno documentário-mentira sobre uma contumaz usuária de maconha de meia idade – protagonizado por Maria Alice Vergueiro – virou hit a jato e inaugurou carreiras de sucesso. Aos 27 anos, Esmir Filho já dirigiu seu primeiro longa, “Os Famosos e os Duendes da Morte”. “Você joga as coisas no YouTube para o mundo e vê o que vai acontecer. A internet mudou o conceito de espectador: ela é uma pílula que tomamos sozinhos e dividimos com os amigos. Cinema é outra coisa”, diz o diretor.
Quanto ao bizarro e ao humor involuntário, bem, o cardápio é variado. E o Brasil é terreno fértil. Programas policialescos como o do repórter Givanildo Siqueira, entrevistados acometidos por crises inexplicáveis de gagueira – o clássico “sanduíche-íche-íche…” –, dublagens cômicas sobre cenas de filmes dramáticos – como “A Queda”, que relata os últimos dias de Adolf Hitler” – e vídeos caseiros com flagrantes divertidos, à la videocassetadas, são encontrados aos montes. E há também os artistas populares que usam uma ferramenta barata e acessível a um público colossal. É o caso de Stefhany Absoluta. Aos 16 anos, a cantora estourou com o clipe de “Eu Sou Stefhany”, no qual declara seu amor por um Volkswagen Crossfox. “O YouTube é tudo mesmo. O site é muito importante para mim, muitas pessoas me conheceram por causa dele”, diz a estrela (conheça outros fenômenos de popularidade nos quadros “Os dez mais”).
*[image: img5.jpg] PRIMEIRO NA WEB Antes do “CQC”, Rafi nha Bastos já era hit no site com seu show de stand up. “O YouTube salvou a minha vida”, diz*
Um dos aspectos mais curiosos sobre o terceiro site mais acessado do mundo – atrás apenas do motor de buscas Google e da rede social Facebook – é o fato de que ele ainda não deu lucro. Uma das pedras fundamentais da chamada web 2.0, era da internet marcada pelo conteúdo criado pelos usuários, o YouTube nasceu sob o lema “primeiro conquiste seu público, a fortuna virá depois”. Neste ponto, Larry Page e Sergei Brin, criadores do Google e donos da plataforma desde 2006, bancaram a solidez do negócio com sua fortuna. Afinal, o valor estimado atual do seu império bate na casa dos US$ 150 bilhões.
Apesar de já conquistar uma fatia considerável das verbas dos anunciantes convencionais, que logo descobriram o potencial dos vídeos virais para divulgar suas marcas – o espectador vê a propaganda porque quer assistir aos shows de Ronaldinho Gaúcho e Lionel Messi, por exemplo –, o site gasta mais do que arrecada porque precisa comprar banda, algo como as pistas da estrada digital por onde a informação trafega na web, e disponibilizá-la gratuitamente aos usuários. Segundo estimativas de analistas de mercado, é bem provável que o YouTube feche 2010 no azul, graças a estratégias mais agressivas de comercialização. “O próximo passo é fazer com que os nossos usuários comuns faturem com seus canais, assim como acontece com os blogs”, diz Mia Quagliarello, direto da sede do site em San Bruno, na Califórnia. “Dessa forma, todos saem ganhando”, completa. Não há dúvidas de que as lições ensinadas pelo YouTube causaram impacto profundo na indústria da mídia. Antes avessos à exibição de filmes e programas como seriados, há tempos os estúdios de cinema e de tevê associaram-se ao site – e faturam alto com isso. Já a publicidade também passou a flertar com a possibilidade de expandir o universo de suas campanhas e transformar a plataforma em uma mídia como os jornais e as revistas. “É uma revolução na comunicação, que ocorre em uma velocidade violenta. Estamos nos adaptando”, afirma Sérgio Amado, presidente do grupo Ogilvy no Brasil. Criada por sua agência, a campanha “Dove Evolution” faturou dois prêmios no Festival Internacional de Cannes em 2007, um deles na categoria Cyber Lion, dedicada à web. “Lançamos primeiro na internet”, explica o publicitário. Fonte: Isto É